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Salve, salva-vida!

No dia 28 de dezembro é celebrado o Dia do Salva-Vidas. O colunista Dalton Vinhaes é um deles, e vem protegendo as pessoas de afogamentos desde o ano de 1995. Mas a escolha do seu ofício aconteceu após fatos trágicos, que o fizeram, ainda menino, enxergar quem são os verdadeiros heróis

Algumas vezes você escolhe, noutras és o escolhido.

Algumas profissões requerem anos para serem definidas, seja por resultados financeiros, visibilidade social, influência familiar, ou fantasias criadas na infância.

Noutras, algum fato acende uma chama e você se vê preso em um turbilhão de sentimentos que lhe impulsionam a exercer aquele chamado, e, por mais que lute para se livrar do “chamado” as “coincidências” no seu trajeto de amadurecimento conduzem a missão imposta pelo universo.

Aqui vou relatar um desses chamados, que não só me “prenderam” como a tantos outros que executam essas missões, duras na maioria das vezes, extremamente perigosas, muitas vezes ignoradas pela população, mal remuneradas e com condições de trabalho desfavoráveis à sua realização, que flertam com nosso desequilíbrio tirando a paz espiritual, mas seguimos em frente por saber que somos os “escolhidos”.

Convido a todos para sentar ao ler, pois, LÁ VEM HISTÓRIA.

O ano era 1979, o local, a Praia do Jardim de Alá, em Salvador-Ba. O motivo? Degustar um delicioso acarajé com meu tio e primos.

Meus dias há muito se resumiam a treinar natação bem cedo, retornar ao lar, sair para a escola, retornar à noite, para tudo se repetir no dia seguinte.

A natação entrou em minha vida muito cedo por conta da asma, e como ferramenta de desgaste da minha hiperatividade, e nunca imaginei que, no futuro, seria essa prática a minha maior ferramenta de trabalho.

Meus heróis, ou exemplos mais intensos, eram os meus mestres, tanto no judô, como na natação, pois realizavam suas práticas de forma que me parecia impossível, me impulsionando à busca da perfeição, mas em nada serviriam para meu futuro profissional, visto que, por ser filho de pais médicos, já tinha decidido que seria um doutor, pois almejava, como criança, realizar algo que os enchessem de orgulho e reconhecimento.

Mas naquele dia em 1979 algo iria acontecer que mudaria para sempre meu presente e o meu futuro, impregnando o meu ser de uma certeza que me segue e rege até os dias atuais.

Ao chegarmos no Alá encontrei dois dos mestres de natação, e alguns dos alunos mais velhos que partilhavam as raias nos treinos de natação e que, para mim, seriam capazes de qualquer grande feito no meio líquido, pois todos ali eram campeões nas provas disputadas em piscina, e para mim eram como heróis, donos de feitos que eu jamais conseguiria igualar.

Fui para cumprimentá-los, pois estavam um pouco afastados do ponto do acarajé e, nesse trajeto, minha visão foi direcionada para o mar, onde dois seres humanos se debatiam em meio às grandes ondas, na tentativa de se manterem flutuando, enquanto outros na areia sinalizavam e gritavam na direção do calçadão, em busca de socorro para as vítimas.

Alertei os mestres e os colegas adultos da natação para o fato e comecei a cobrá-los ação, pois entendia que diante de suas realizações aquáticas em piscina, o resgate daquelas vítimas seria algo simples para eles, e, diante da recusa dos mesmos em correr ao socorro, me fez sentir a primeira grande desilusão infantil, que iria modificar definitivamente o meu conceito de herói!

Enquanto uma pequena aglomeração se formava na calçada, assistindo angustiada e incapaz de agir em socorro daquela possível perda de vida, vislumbrei na areia a corrida de dois pescadores e de um barraqueiro (naqueles anos não existia grupamento de salvamento marítimo), que se atiraram nas ondas, portando apenas uma boia vermelha e circular, amarrada com um pedaço de corda com um símbolo em cruz desenhada em sua borda, e, com uma técnica de natação simplesmente incoerente com o que eu treinava, abordaram as vítimas e, sumindo e aparecendo entre as explosões que as ondas emitiam ao quebrar sobre a laje de pedra, traziam os corpos ainda vivos usando apenas um braço para remar, pois o outro estava grudado na vítima.

Sob nossos olhares espantados vimos pessoas (médicos que ali estavam entre os clientes do acarajé) iniciando manobras de RCP em uma das vítimas, uma mulher grávida, e que, mesmo com todos os esforços, acabou vindo a óbito antes da chegada dos bombeiros.

Em lágrimas, acusei os que antes me remetiam a heróis, de covardes, pois, mesmo sendo uma criança, fui tomado por um sentimento adulto, de culpa, frustração e desilusão.


Fui repreendido por meu tio e me afastei deles, chorando, em direção à baiana de acarajé, onde fui abordado por um pescador já velhinho que, ao me ouvir desqualificando os professores e nadadores que não foram ao socorro, explicou-me que de nada serviria apenas a condição de nadador para um resgate, que eles não eram culpados por não terem ido ao salvamento, que apenas homens criados na beira do mar, conhecendo todos os seus segredos, suas correntes, os ventos e, o mais importante: o respeito às entidades da água, estavam aptos a serem verdadeiramente heróis, pois faziam isso com constância, mesmo sem remuneração ou gratidão da população.

Naquele momento o chamamento do destino me fisgou, e os anos seguintes foram completamente voltados à interação com o oceano, com os ventos, com tudo que fosse preparatório para ser um daqueles heróis, os estudos só tinham sentido se me mostrassem ser úteis nessa preparação, e, mesmo tendo a chance de exercer qualquer outra profissão, pois meus pais não mediam esforços no que se referia à nossa preparação acadêmica, declinei de tudo, de todas as facilidades e chances, para dedicar todo o meu tempo aquele objetivo.

Surf de peito, mergulho, canoagem em ondas, natação em águas abertas, estudo de oceanografia, convívio constante com pescadores para aprender sobre humildade e respeito às Entidades que regem as águas, eram relatados por algumas pessoas como “vagabundagem” e, mesmo ciente das consequências e das cobranças, segui, pois não existia mais nada que me preenchesse espiritualmente, a não ser a missão de cuidar, salvar e proteger todo aquele que se visse em situação de perigo nas águas do mar.

No início da década de oitenta, um pequeno grupamento de guerreiros participaram da criação do que hoje é o Grupamento de Salvamento Aquático, o SALVAMAR, tendo como material de trabalho apenas uma barraca, bóias vermelhas marcadas com aquele símbolo de cruz que se tornaria o meu objetivo, uma corda, e uma coragem que só os que atendem ao chamado das Entidades do Oceano conseguem ter, todos homens criados na beira da praia, abriram caminho para que outros, como eu, seguissem seus exemplos, suportando as críticas, os riscos, a baixa remuneração o pouco reconhecimento por parte da sociedade, simplesmente porque, FOMOS ESCOLHIDOS, não tendo outro caminho a seguir, orgulhosos de cada vida que damos continuidade ao resgatá-la das forças do mar, trazendo alívio e vida, aos familiares e amigos. 

Em 1995, após já ter servido como salva-vidas em prestações de serviço apenas no período do verão, junto a vários outros HOMENS do MAR desde sempre, passei em concurso publico como Agente de Salvamento Aquático, e juntos seguimos até os dias atuais, deixando nossas famílias apreensivas com o nosso risco, com a nossa ausência, pois, enquanto todos se divertem, nós trabalhamos para proteger e salvar.

No dia dedicado a esses seres especiais, dia 28 de dezembro, conclamo a todos que, ao passarem ao lado de um salva-vidas, os homenageiem, sabendo que ali está alguém que, mesmo muitas vezes sem condições operacionais, sem remuneração adequada, sem reconhecimento que muitas vezes só vem da família ou amigos das vítimas, afastados de seu convívio social, pois trabalhamos onde todos se divertem, seguem firmes, para sua proteção.

Mesmo diante de todos os feitos desses verdadeiros HERÓIS, nossa profissão de salva-vidas simplesmente não tem regulamentação, trabalhamos em algo que não nos dá segurança futura de aposentadoria especial pela insalubridade e periculosidade, mesmo após a Comissão de Desenvolvimento Regional e Turismo (CDR) ter aprovado, em 04/09/2019, o Projeto de Lei da Câmara (PLC) que regulamenta a profissão de salva-vidas, a matéria segue em análise pela Comissão de Assuntos Sociais (CAS) e pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), sem definição até o momento atual.

Diante dos fatos expostos, rogo que cada um de vocês, nossos leitores, nos auxiliem na divulgação e aprovação desse projeto, e que, ao verem um salva-vidas em seus postos de trabalho, enxerguem em cada um deles, um GUERREIRO, um HERÓI, que, mesmo diante de tantos obstáculos, de tantos desafios, pondo suas vidas em risco todos os dias, sofridos pela exposição às intempéries do tempo, sob sol, sob chuva, em mares bravios, areias escaldantes, onde o único alicerce é a cumplicidade do seu parceiro de dupla no posto de observação, não declinam da missão, correm descalços sobre pedras afiadas, se lançando em correntes de retorno que mais parecem corredeiras que dragam tudo que ouse adentrar em seu caminho, para no fim do dia seguir altivo e garboso para seus lares, com a certeza de que, no dia seguinte, estará lá novamente, e, mesmo quase “invisíveis” aos olhos de muitos, são responsáveis por mais uma família poder estar junta à noite, agradecendo por estar viva, após nossa HERÓICA ação de resgate, ciente de uma única verdade: 

SOMOS OS ESCOLHIDOS!

SALVE SALVA-MAR!

@daltonvinhaes
Canal no You tube: VINHAES EDF

Fotos: Acervo pessoal, Foto por Lukas em Pexels.com Foto por Dih Andru00e9a em Pexels.com Foto por Emiliano Arano em Pexels.com

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