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Privado – relatos

“Do pó viestes e ao pó retornarás”

Sou de uma família oficialmente católica mas sem costume de frequentar missas. Meu pai foi um estudioso de teologia, leitor da Bíblia, da doutrina espírita, cantador de hino a Oxóssi, adepto de debates filosóficos com quem batesse à porta à procura de conversa. Coitados. Minha mãe é daquelas que tem santinhos em casa, mas acostumou-se a tratar de fé apenas com círculo de amigas, e olhe lá.

Meu pai falava que a nossa energia vai para a batata plantada no chão. Cheguei a escrever isso em uma prova na Ucsal, e, claro, o padre professor não gostou nada daquilo.

Hoje, dia da aula de Prática Solística, iria escolher um objeto do meu cotidiano, uma caneta, talvez. Mas ao testar minha imagem na câmera visualizei, no enquadramento, uma orquídea que ganhei na semana passada, dentro de um pote de plástico. Resolvei aproveitar o tempo restante, antes do encontro com a turma, para transplantar a muda. Não pesquisei. Cometi o erro de replantar em terra. Somente depois, em uma consulta no Google, vi que as raízes apodreceriam.

Assim, o que seria para intensificar a vida, se tornaria um decreto de morte. Assim como a Terra, de onde viemos, que nos alimenta, é a mesma onde agora estão sendo abertas covas para enterrar tantas vítimas da Covid-19. Meu pai morreu com Corona Vírus, em maio. Respeitando a vontade dele, foi cremado. Voltou ao pó.

Fazer yoga me ajudou muito, no período de perda traumática do meu pai. Noites mal dormidas, dias em pesadelo. Tudo começava a ser esquecido ao tocar o chão onde eu pisava – o solo, a terra -, transmitir esta energia no toque nos meus pés, na minha perna, no meu corpo e enaltecer o sol. No foco da minha prática, a volta ao foco e à relação com elementos vitais para seguir com a minha sobrevivência, em meio à tanta adversidade.

Tudo isso pensei quando vi a terra que “sobrou” depois da volta da orquídea ao seu lugar. Ontem trabalhamos com pedra, na aula de Maíra, crítica. Eu me conectei ao tema e ainda endossei a relação com meu sobrenome, Pedreira, meu apelido, Pedra ou Pedrinha.

Também me lembrei dos exercícios no chão da sala de aula de Clara e Mathias, quando experimentar me tornar bichos (começando pelos rastejantes e saltitantes) me trouxe a segurança de fazer parte de uma história que remete à milhões de anos de evolução. Também na aula de Martha, na praia, trouxe em mim o desejo de uma fusão com o meio ambiente.

Estas foram as referências que me levaram a escolher o objeto, o elemento, como solicitado, de qualquer natureza. Pretendo experimentar, com meu corpo, movimentos que me tragam esta sensação de pertencimento a um ciclo de vida – ou a outros que ainda virão, como batata ou não.

Acabo de assistir ao instigante trailer do filme Quanto Tempo o Tempo Tem, de Adriana L. Dultra e Walter Carvalho. No longa-metragem de 2016, pensadores cravam questões. Como:

“O tempo ficou mais rápido?”
“O tempo está cada vez mais precioso, porque temos cada vez menos tempo para fazer a próxima revolução”
“Até chegar a internet – e o espaço desaparece”
“Isso muda consideravelmente nossa vida, até nosso acesso à felicidade”
“Assim que nasço, que chego à Terra, chego para morrer”
“O prazer é associado à existência e à finitude. E isso é o grande desafio”
“Nós criaremos um tipo de desigualdade social inédita na humanidade, os que morrem e os que não morrem”
“Justamente porque nós vivemos dentro deste tempo finito, nós temos, de alguma forma, de driblar este limite temporal”
“Sinfonias, literatura, a receita que vai de geração em geração da família… Todas essas criações podem existir fora do tempo”

Este filme, sobre o tempo, quero assistir. Terei tempo para isso?

2020, para alguns, será o ano em que o tempo parou. Para outros, será o contrário, ele foi acelerado, com fatos brotando, intempestivos, afrontosos…
Neste contexto incrível, histórico, no qual sagas pessoais não podem e não devem ser soterradas, foi inserido o Semestre Suplementar da Escola de Dança da Ufba. Para mim, uma chance “milionária” de poder olhar para meu umbigo, depois de meses cuidando da minha mãe, que escolheu outros rumos*.

Agarrei-me à esta oportunidade, resgatando desejos ligados à dança, que já me levaram a muitos caminhos, veredas, vielas, encruzilhadas… É necessário falar, aqui, que um confronto inicial foi relacionado com a tecnologia para as aulas online e com o meu despreparado equipamento. Além disso, a falta de naturalidade de me enxergar como aluna, no meio desta treva – e, especialmente como aluna de dança do ambiente acadêmico, tantos anos depois de me graduar jornalista. Isso sem citar a falta de naturalidade para me enxergar como professora, algo com o que teria de me (de)bater, no componente.

A princípio, pensei em ouvir, sem me manifestar. Câmera sem funcionar, cheguei a fazer yoga para ficar zen, enquanto escutava o que falavam. Mas o dedo coçava e fui, aos poucos, me manifestando no chat. Um tanto de vontade de falar chegou, depois de ouvir aquela voz de Buda tranquilo e consciente do professor Thiago, acolhendo uma variada gama de depoimentos, da turma de colegas. Ahhh professoralidade não tem necessariamente a ver com tempo ministrando aulas, mas, sim, com aquilo que você pode contribuir-receber-contribuir-receber… Histórias sem fim.

Que maravilha olhar para trás e ver que este tempo ao longo de meses, foi honrado. Que atravessamos juntos, com nossas diferenças! Que forma bonita de investir manhãs. Eu, que não tomo café, passei a fazer capuccino toda quarta, porque vi companheiros com xícaras e garrafinhas, e, assim, eu podia celebrar aqueles encontros!

Fomos indo, vindo… criar um vídeo sobre a professoralidade, em mim, foi um momento que não esquecerei. Na justificativa para seguir a linha idealizada, aconteceu a descoberta, na prática, de que, na natureza, nada se perde, tudo se transforma. E, assim, meu trabalho uniu dança, jornalismo, estudos na área de história e sabe-deuses-o-que-mais. Para mim, foi como jogar um holofote sobre minhas dúvidas, clareando…

Termino o componente reconhecendo que me expressei como podia, ainda cultivando minha timidez por falar, que vem de décadas, muitas… Celebro o retorno à escrita. Par mim, o Ava, com tantas deficiências que me dão nos nervos, foi uma plataforma para pensar! As leituras, além das aulas, provocaram em mim esta reação. Ler sempre foi custoso no início – e sempre compensador, no final de cada missão.

Termino jogando confetes em Thiago Assis. Professor da Escola de Dança da UFBA, anteriormente professor do Curso de Licenciatura em Dança da UESB e ainda mais anterior, professor do curso de Educação Profissional da FUNCEB. Mestre, Doutor. “Tenho uma enorme paixão pela Dança, sobretudo no contexto educacional. Sou alguém que acredita que a Dança ensina para além dos passos. Sou de Salvador, homem negro, gay, da periferia e um apaixonado pelas águas”. No meu entender, um exemplo Humano dedicado e amoroso, do que significa ser professor.

Também celebro a participação dos doutorandos Jacson e Agatha, que enriqueceram tanto as nossas aulas, com suas contribuições . Efetivamente, nossos conteúdos tiveram a pulsação viva, de quem atua, produz, realiza, pensa a dança! Fomos um!

Meu SS finaliza, assim, não com uma cereja no bolo. Mas com uma sobremesa daquelas suculentas, que fica na nossa memória palativa, mental e psicológica, deixando lembranças maravilhosas de (e para) uma linda jornada!

*Minha mãe quis voltar para a casa dela, enquanto minha irmã estava na cidade. Depois passou pela casa de um irmão e depois, após ameaça de Covid, para a casa de outro, agora. Fez exames corriqueiros e constatou que foi exposta ao Corona Vírus. Neste momento, tem alta carga de anticorpos. Sempre existirão motivos para sorrir, mesmo no caos…

Adriana L. DutraWalter Carvalho. Longa metragem 1h16m. 2016. 

Quanto tempo eu investia dirigindo para a Escola de Dança, no segundo semestre de 2019?

Estive calculando quanto tempo eu investia em calcular

Quanto Tempo o Tempo Tem.  Direção de Adriana L. DutraWalter Carvalho. Longa metragem 1h16m. 2016. 

Sobremesa para o final

dificuldades com leitura

redescoberta da escrita

escuta

thiago, Jacson, Agatha parabéns, doutorandos

XXX

Nunca mais seremos os mesmos*

“Diga adeus aos deuses
Olhe pras estrelas
Não pense nos seres
Que não podem vê-las

Frases sem firmeza
Tempos de tristeza
Discursar no escuro
Por cima do muro

Nunca
Sempre
Nunca mais

Vida
Morte
Vai em paz”

Lá estávamos nós de novo. Membros da equipe realizadora do flash seminário baseado em NUHR, Andréia. Escrever história da Dança: das evidências às descontinuidades históricas. In.: Anais do IV Encontro da Associação Nacional de Pesquisadores em Dança-ANDA. Fizemos a apresentação do seminário no dia 20 de outubro. Nos reencontramos para mais uma atividade no dia 1º de dezembro.

Foram tratadas questões relacionadas ao percurso coletivo, até aqui. Como estratégia didática para favorecer a reunião com alunos, foram criados ambientes para cada grupo. Ali, nossa esfera, para abordar pertinências da nossa compreensão da jornada.

Eli Za enfatizou que a história agora também se esta escrevendo no formato virtual, com vídeos, fotos. As redes sociais, por exemplo, estão com uma nova forma de escrever história. Ela também focou na questão da descolonização dos corpos, como um jeito de re-escrever a história. De conhecer outras culturas, outros pontos de vista, de ver uma história mais completa.

Claudia citou que participou de algumas mesas do Fórum, que considerou muito interessantes. Na abertura, aconteceu a presença de representantes das instituições da Ufba que se aglutinam para a realização do evento. Carmen Paternostro, diretora da Escola de Dança da Ufba, destacou o esforço para a realização do evento, em plena pandemia.

Simone falou sobre história e historiografia, citando, do Fórum Negro, a apresentação da Vovó Cici. Uma grio contadora de histórias e encantadora senhora, que fala da nossa ancestralidade com tanta propriedade e que arrebatou a todos em emoção. No 35º Painel Performático, ela diz que foi muito interessante os videos de dança com a temática da memória.

Durante a discussão em equipe se concluiu que o Painel Performático apresentou uma diversidade de ideias, espantosamente criativas. Numa das edições alguém perguntou, no chat, de onde vinham tantas ideias, quando imaginamos estar tão “sem criatividade”. A inclusão das salas com realizadores, realizadores do evento e professores, administradores deu oportunidade de um recorte mais pessoal, dando um clima mais intimista e possibilitando narrativas, exibidas ao público das lives.

Também foi consenso a noção de que, participar do componente, investigando questões, como as relacionadas à memória, registros e videodança, fez perceber a importância de registrar trabalhos e trajetórias de estudos e realizações. Os vídeos postados em canais do YouTube, como por exemplo o da Escola de Dança da Ufba, possibilitam a amplitude de divulgação de obras.

A programação do Fórum Negro e do Desmonte, além da Painel, foi motivação de publicação no site agoramexe.com, editado pela aluna Claudia Pedreira, que pode acompanhar e contribuir com a divulgação da programação. As informações constam na coluna “Giro na Ufba”.

*(música da banda 365 – Seu estilo foi intitulado por alguns críticos como rock de combate)

Na infância, Eu e meu quatro irmãos subíamos em árvores, corríamos no pique-esconde, subíamos em carroças… Sendo o mundo mais seguro do que os dias atuais. Quebrar ossos, meus irmãos quebraram demais. Eu me mantive íntegra na ossatura. Mas, aos 9 anos, tive febre reumática. Me locomovia com dificuldade e fui levada de uma cidade do Maranhão para um hospital em Teresina, Piauí, e, de lá, trazida para a Bahia, terra do meu pai, onde fui diagnosticada e passei a tomar injeções dolorosas. Voltei a andar e a pedalar, uma bicicleta que meus pais me presentearam, uma The Black Tiger, meu melhor presente da infância! Meu pai, um antigo campeão de saltos acrobáticos, nos ensinou a nadar, em piscinas e em rios. Ele foi um estímulo para que eu nunca parasse. Já corri na praia, em areia fofa, treinei natação com Claudio Peixinho, no antigo Clube Português. Experimentei capoeira e foi aí que tive o primeiro problema com os ombros. Mas já escutei de um médico que a causa da folga articulalr poderia ser devido à natação. Comentei na aula que tenho problemas há 20 anos, mas é um pouco mais. Já desloquei ombros em uma ocasião, quando meu filho era um bebezão. Já fiquei afastada do trabalho por causa do problema, tratado, em crises mais graves com a santa fisioterapia. Hoje controlo, com busca de posição de dormir com a barriga para cima e evitando movimentos que já entendo serem arriscados. O fortalecimento com exercícios de apoio me trazem benefícios. Comecei a me interessar por dança há 21 anos, ainda grávida da minha caçula. Comecei fazendo swing baiano. Foram 15 anos com professores de bairros da cidade. Depois, passei a estudar dança do ventre, por oito anos, em paralelo com meu início nas danças de salão. Os movimentos de braços, a princípio, eram complicados, até eu entender o que eu não poderia fazer com os condutores. Estudei forró e passei para o zouk, indo para o bolero, samba de gafieira, tango e outras modalidades. Comecei a sentir o tornozelo há uns três anos, em danças de apoio no metatarso. fui ao médico mas não dei muita atenção, nem fiz o exame. Continuei com as práticas, até piorar um pouco por conta do número de aulas e de festas, nas quais eu sempre estava de salto alto.

Em 2019 ganhei um campeonato de bolero em Salvador, com meu parceiro, e fomos em seguida para o RJ, competir em um evento nacional para o qual fomos convidados. Chegando lá, após a imobilidade no avião e frio, senti as dores que sentia no tempo do reumatismo, da febre reumática. Não busquei exercícios na net (que hoje tenho conhecimento, via componente), treinei para a disputa e dancei com uma sandália amarrando o tornozelo, esperando meus momentos por horas. Considero este um dos motivos do meu desconforto na competição. Além de questionar o próprio sistema da disputa, algo na área psicológica.

Durante a pandemia, comecei a praticar yoga, como forma de condicionamento físico e como tentativa de superar o trauma com a perda do meu pai. Muitas vezes percebi que meu joelho e tornozelo melhoravam muito com o alongamento. Me inscrevi em um site de danças com valor mensal acessível e passei a experimentar dança flamenca e balé, sem disciplina. Voltei à bicicleta, com gosto, mas comecei a sentir o pescoço, talvez pela tensão de estar na rua. Com o Lockdown, parei a bicicleta. Com as aulas do componente, e o reconhecimento da necessidade de atividade aeróbica, por meio do vídeo proposto, retomei o site de dança, fazendo 15 minutos por dia de Ritmos. Também passei a praticar exercícios para lubrificação e fortalecimento das articulações. Antes de deitar e depois.

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