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Fala, mestre!

A coluna deste dia 15 de outubro é especial, porque celebra o Dia do Professor! A dupla Cissa e Jaguar revela como despertou para a dança e para o ensino. Eles detalham tudo sobre aulas online e sobre os próximos planos!

O samba de gafieira ganha potente expressão com a dupla Cissa e Jaguar. Juntos artisticamente desde 2015, eles são sempre convidados a participar de congressos pelo país, onde fazem apresentações e ensinam a malemolência, a ginga, a criatividade e a agilidade do ritmo genuinamente nacional. No ano passado, os dois fizeram viagens internacionais, ministrando aulas na Europa (Paris e Lyon, na França, Genebra, na Suíça, Londres e Inglaterra) e, na América do Norte, Canadá (cidade de Montreal). “Nosso grande plano e objetivo é colocar a Bahia no cenário do Samba de Gafieira. Conquistar mais apaixonados, mais praticantes, e viver dessa arte, que tanto nos impulsiona e exige da gente, como nos satisfaz”, dizem. Esta entrevista com a dupla celebra este dia 15 de outubro, Dia do Professor! (Claudia Pedreira)

Claudia Pedreira – Como se interessou pela dança?
Cissa Barbosa –
A resposta parece clichê m,as é verdade. Desde criança eu brincava de dançar. Usava saias rodadas e pedia pra minha mãe fazer outras pra mim. Dançava vendo as Paquitas de Xuxa, as Angeliquetes de Angélica, as coreografias de Chiquititas, as bailarinas do Faustão… Como eu ouvia muita música clássica nos LPs de meu pai, eu “montava coreografia” para meus brinquedos me assistirem, mas meu pai não tinha dinheiro pra me colocar no ballet. Até que, adulta, na faculdade, conheci um bolsista de Dança de Salão que me levou à tradicional escola de dança Rosângela Fraga e eu pude, finalmente, realizar minha sonho de dançar.
Jaguaray Santana – Bom, eu e meu pai (Jaime Neves Santos, da Jeito de Dançar) tínhamos uma relação legal, mas tivemos, em um determinado momento da vida, alguns desentendimentos que nos afastaram. Curiosamente, eu sabia que a coisa que meu pai mais gostava nessa vida era dançar e, após muita insistência de minha mãe, eu decidi me aproximar de meu pai pela via da dança e, assim, eu comecei a me interessar pela prática da dança de salão. Dançar, pra mim, representa esse reencontro com meu pai, no qual eu acabei ganhando um pai, um mestre e um grande amigo no processo.. E é indescritivelmente prazeroso descobrir algo que você ama fazer e que dá pra dividir com quem você ama também… e lá se vão quase 13 anos… rsrsrs

CP – Lembra como definiu que seria um profissional da área?
Cissa – Lembro sim e tem duas partes. Vou resumi-las. Estudando Educação Física na Católica, que me levou a fazer aulas de Dança de Salão, um amigo meu me disse: “Observe como os professores dão aula. Quem sabe esse é seu caminho na Educação Física”. Essa frase mudou meu comportamento, de uma pessoa que faz dança para aluna de Licenciatura em Educação Física que faz dança. Mesmo assim eu ainda não estava certa disso. Até que, em 2009, já ensinando e com duas turmas, no meio de minha aula de natação, eu decidi: “Quero ser professora de Dança de Salão”.
Jaguar – No meu caso, as coisas foram acontecendo organicamente. No início eu não pretendia ser um profissional da área de dança, eu tinha 16 pra 17 anos e
profissionalismo era uma ideia muito distante em qualquer área de
conhecimento! Rsrsrs Eu cursava Design na Federal e praticava dança em paralelo, e, à medida que os anos foram passando, eu fui fazendo cursos, workshops, mesmo não cursando dança, dentro da faculdade eu fui fazendo muitas coisas relacionadas ao corpo, estudei cenografia, anatomia, performance, pois esses eram assuntos que me interessavam, na medida em que a dança ia se tornando uma certeza na minha vida, mas foi chegando aos poucos. Com o tempo, acho que com cinco ou seis anos de dança, meu pai me permitiu ensinar na turma de samba dele e, de lá para cá, não parei mais. Posteriormente, eu e Cissa fizemos uma parceira de dança e, aí, eu aprendi ainda mais com ela e continuo aprendendo.

CP -Na sua visão, o que é necessário para ensinar dança?
Cissa – Temos professoras e professores que não possuem formação superior na área de dança e que são grandes nomes. Temos também aqueles com formação
superior em outras áreas e excelentes comunicadores aqui e fora do país.
Temos maravilhosas pessoas apaixonadas pela dança, formados e atuantes na
área. Precisamos lembrar que Dança de Salão tem origem popular. Nasceu no corpo de seus praticantes e foi para a sala de aula com o passar do tempo, para contemplar a todos nós. Dito isso, e por muito já refletir sobre esse assunto, concluo que não é uma pergunta simples de responder. Mas, certamente, é necessário um pacote de qualidades, destrezas, conhecimento de si, do outro e de dança como também muito comprometimento, responsabilidade.
Jaguar – Na minha visão, a passagem de um conhecimento ou habilidade está intimamente atrelada ao grau de proximidade que você tem com aquela atividade. Então, sendo bem sucinto e direto, para passar um conhecimento sobre algo é necessário ter vivência naquela atividade (dança de salão é algo que é proveniente do salão, é preciso vivenciar fortemente este ambiente para ter o que falar sobre o mesmo), ferramentas de ensino (técnicas pré desenvolvidas, adaptações ao seu universo e situação particular) e, obviamente, uma grande capacidade de se colocar no lugar do outro.

CP – O que o aluno precisa para aprender?
Cissa –
Vontade, carinho consigo e, como é dança a dois, com o outro. Não há contraindicação. A dança é para aquele que quer dançar. Agora, não vá aprender sem uma grande dose de compromisso, tá?! Compromisso e paciência com seu processo. Toda nova prática, novo estímulo ao corpo, leva tempo para sua maturação. Então mais uma vez: VONTADE.
Jaguar – Acho que o que o aluno precisa mesmo é “lembrar” de como se aprende as coisas… como ele ou ela aprendeu a ler, a praticar esportes ou a correr…Enfim, escolhi práticas distintas, pois para cada uma delas o ser humano usa um caminho diferente de aprendizado… E é aí que entra o professor, que deve trabalhar para adquirir o máximo de ferramentas possíveis, para colocar o aluno em contato com os caminhos de aprendizado que ele têm dentro de si, logicamente, condizentes com as limitações ou fatores condicionantes de cada indivíduo.

CP – Destaque ações realizadas como mestre que te trazem emoção e/ou a
certeza de ter escolhido a profissão certa

Cissa – A evolução, a autonomia do aluno, da aluna que me escolheu como sua professora. Me encanta acompanhar este desenvolvimento.
Jaguar – Eu gosto de atividades dinâmicas e, na dança, se você estiver fazendo “certo” sempre há o que aprender e com quem aprender, sabe? Essa falta de esgotamento me faz manter o interesse constante na atividade e faz com que eu vivencie, como aluno e professor, trocas humanas genuínas, verdadeiras. E
isso não tem preço, faz tudo valer a pena.


CP – O que aprendeu com a fase de isolamento social e como reflete esta
evolução em seus projetos relacionados à dança? Como os alunos
podem fazer aulas com vocês?
Cissa e Jaguar –
No nosso caso, diríamos que os processos de investigação das construções e desconstruções sociais acerca das relações de poder entre os gêneros… Pensamos que isso mudou a forma como enxergamos e propomos coisas para os nossos alunos, tentamos hoje oferecer uma experiência mais completa do dançar a dois, mesmo que sozinhos, para eles. Isso impacta diretamente em como iremos tratar determinados temas nofuturo e as terminologias que a gente utiliza para se referir aos papeis assumidos ao se dançar a dois. Bom, no momento temos aulas online duas vezes na semana, é só entrar em contato conosco pelo nosso instagram, o “@cissaejaguar”, nosso facebook “Cissa e Jaguar”, nosso canal no YouTube de mesmo nome, ou o nosso e-mail cissaejaguar@hotmail.com .

CP – Comente sobre a concepção de projetos de aula que realiza. Quando e como foi criado, trajetória e fase atual, durante a pandemia, com
adaptações. Pelo olhar de professor, destaque a importância da ação.
Cissa e Jaguar –
Bom, a gente é, como todo mundo, uma mistura de coisas. Cissa é da Área da Educação Física, Jaguar é designer e,nestes dois cursos, há bastante experiência na relação ensino/aprendizado. Diríamos que os nossos processos
criativos “obedecem” a um ciclo, que se alimenta dessas experiências prévias, mas que conversa diretamente com o volume imenso de aulas com profissionais distintos, com os quais tivemos a oportunidade de aprender e trocar.

Para sermos bem sucintos, vamos ficar com um dos nossos métodos de criação de temas, pois a gente percorre muitos caminhos. Tem uma tríade do “design thinking” que a gente usa muito “imersão, ideação e prototipação” que basicamente consiste em você investigar e absorver o máximo de conhecimentos acerca de um tema sem julgamentos (nessa etapa, tudo serve) e depois disso vamos à construção das nossas próprias ideias, a partir do montante de informações que conseguimos reunir, soluções preliminares e, por fim, chegamos à prototipação, damos corpo e finalização real ao que havia sido proposto lá no início…

Obviamente, a pandemia nos exigiu uma série de adaptações dentro das aulas online. Tivemos de “reentender” o ritmo de uma aula, as exigências e exercícios, pois a maioria do nosso público de alunos é constituída de pessoas que têm dançado sozinhas em casa. Tivemos que rever também a quantidade de informação que a gente coloca numa aula e, claro, há algumas vantagens, como, por exemplo, gravar aquele conteúdo e deixar os alunos terem acesso e poderem revisitar, isso ajuda muito! Foi importante criar determinadas adaptações e entender o momento, não somente para que a gente pudesse atingir os alunos, mas pelo fato de o momento ter demandado da gente essa capacidade de adaptação ao meio digital, sabe? Se não tivéssesmos essa disposição, provavelmente teríamos sido engolidos pelas circuntâncias.

CP – Quais são os seus planos próximos?
Cissa e Jaguar – O primeiro passo é retomar nossos treinos. Estudos, investigações, análises, geralmente advêm dos nossos treinos constantes, assim como das aulas que assistimos em congressos, workshops, e da vivência em sala de aula. Já temos alguns eventos agendados para 2021, que não foram possíveis neste ano de pandemia. Isso motiva demais a gente.

Continuamos aprendendo sobre o mundo digital e como permanecer nele, com ações. No início a gente achava que era uma opção momentânea, hoje acreditamos que é mais campo de atuação que queremos estar cada vez mais.
No mais, nosso grande plano e objetivo é colocar a Bahia no cenário do Samba de Gafieira. Conquistar mais apaixonados, mais praticantes e viver dessa arte, que tanto nos impulsiona e exige da gente, como nos satisfaz.

Cissa e Jaguar
Nascidos e criados em Salvador, Bahia. Ela, licenciada em Educação Física, professora de Samba de Gafieira há 12 anos. Ele, graduado em Design professor de Danças de Salão e Samba de Gafieira há sete anos em uma das escolas mais tradicionais de Salvador.. Juntos desde de 2015, representam seu Estado em Congressos no Brasil e em escolas de dança na Europa.. Buscam fundir vivências culturais da sua cidade ao Samba de Gafieira.

Fotos e vídeo com improviso: Acervo pessoal


2 comentários em “Fala, mestre!

  1. Minhas referências 😻👏🏿 Sempre presentes no meu desenvolvimento na dança, desde os primeiros passos! Gratidão a eles pelo profissionalismo de sempre! SOU FÃ ❤️

    Curtido por 1 pessoa

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