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A pedra antes da última curva – Final*

No verão de 1986, voltamos todos, com um amigo que dirigiria uma Land Rover, mas não descia no rio, era trilheiro, e se dispôs a nos buscar na saída do rio em Praia do Forte.

Consegui patrocínio de uma marca de caiaque nacional que soube da minha história, pois, sem saber, todo meu drama até desaparecer depois da última curva tinha sido gravado, e,

agora, estava montado em um caiaque de ponta, que não afundava se virasse, com coletes especiais, capacetes de última geração, tudo ganho após entender que devia nunca mais me agarrar a qualquer coisa que me cause dor, ou me mantenha preso no mesmo, por medo do desconhecido.

Entramos no rio, com a segurança que o paraíso estava após a corredeira depois da “última curva”, e que, para chegar ate lá, nenhum de nós, se virasse o barco, deveria se agarrar a nenhuma pedra. Era só confiar no colete salva-vidas, nas nossas experiências pregressas e se deixar levar pelo tormento, até a calmaria.

Nesse dia, só fortes emoções, nenhum acidente. Paramos após todos vencerem a última curva e o antigo temor foi vencido por toda a equipe. Chegando ao paraíso, comemos as melhores frutas das nossas vidas, deixamos os instintos fluírem e brincamos como crianças, imitando animais, nadando naquela lagoa de águas tranquilas e seguimos, como desbravadores, descobrindo que a “última curva” era uma das primeiras que aquele rio escondia, que viriam trechos intransponíveis pela água, e, daí, era só sair e caminhar na margem, abrindo caminho na mata, até um ponto em que pudéssemos continuar pelo rio, ao invés de nos agarrar a alguma pedra nos machucando, por medo do novo, por medo do desconhecido.

Após seis horas, chegamos à Praia do Forte, onde encontramos nosso amigo, ficando cinco dias subindo e descendo aquele rio, mapeando o mesmo, descobrindo no caminho novas trilhas na mata, que nos davam acesso à estrada, no caso de alguma urgência, colhendo e comendo aquelas frutas com galinha caipira e peixes na vila dos pescadores, onde ficamos acampados, tudo isso após eu ter tido coragem de me “desprender da pedra na última curva”!

Pensando no nosso momento atual, no qual a pandemia nos tem afastado de nossos empregos, muitos por demissão, outros por falta de opção; na falta de contato físico com quem amamos; na perda das nossas “fugas da realidade”, como festas e badalações, que nos desviavam dos nossos conflitos pessoais, e estão proibidas, nos obrigando ao convívio com nossos ”eu”; no medo do que está por vir após a chegada no platô das contaminações, do que virá depois da curva no gráfico de internações, no qual a certeza que não teremos mais o que entendíamos como normal, no qual permanecer preso à “pedra da última curva”, além das fraturas na alma, nos cega para um possível paraíso, encontrado ao sermos obrigados a seguir rumo ao desconhecido, ao novo, ao confronto conosco, nosso interior que estava camuflado e silenciado em nossas zonas de conforto, está agora no momento do desprendimento.

Vamos, experimente aceitar que o “nível do rio” subiu ao extremo, e se lutarmos para ficar no mesmo lugar, antes “seguro” do nosso passado, com os mesmos comportamentos, poderemos nos afogar em frustrações, geradas nas corredeiras de nossas emoções.

Coloque seu “colete salva-vidas”, e se seu barco afundou, se você foi levado ao fundo encontrando pedras que lhe prendem, use suas experiências em outras provações passadas como base, se desprenda, deixando que o novo chegue com seus desafios, vitórias e derrotas.

Use seu último “suspiro de adolescente que nunca desiste” e acredite que seremos melhores após tanto medo e dor. Entenda que realmente não precisamos fazer nada que não queremos, na tentativa de sermos aceitos, nada temos que provar a ninguém, compreendendo, diante desse momento, que nosso mais precioso bem é o tempo, e não devemos desperdiçá-lo nos mantendo num antigo normal, da qual muitos reclamavam por não estarem satisfeitos, mas seguiam presos, na busca de bens materiais supérfluos, de intermináveis fins de semanas de fuga dessa rotina, para tudo voltar na segunda-feira.   

Sempre teremos opções para cada momento, para cada desafio, ou nos prendemos na pedra na tentativa de ficar no lugar seguro, mesmo sendo quebrados pela força do fluxo da vida, ou acreditamos em nós mesmos e seguimos mudando, nos adaptando, nos reinventando na busca das nossas reais aspirações, que no meu caso são saúde, saúde e saúde, para que eu possa ainda realizar sonhos. Tenho certeza, por experiência própria, que a única coisa que não temos como reverter, até agora, é a morte, e se você sobreviveu ao vírus, todo o resto pode, deve e será vencido.

Não sei você, mas eu vou criar coragem, e em homenagem aos que perderam essa batalha, vou parar de temer, de reclamar, de me vitimizar, vou soltar a pedra que me prende ao passado e te desejo o mesmo, agradecendo, pois estamos tendo a segunda chance e a lição que aquela corredeira me deu no passado é que se tivesse ficado preso à canoagem de onda, apenas, jamais teria aprendido!

Espero vê-los depois da ultima curva! Até já!

*Nesta edição, continuidade das colunas dos dias 12 e 20

 INSTA @daltonvinhaesdantas // Canal no youtube, acesse VINHAES EDF

Foto por Jacub Gomez em Pexels.com, Foto por Josh Hild em Pexels.com

1 comentário em “A pedra antes da última curva – Final*

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