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A pedra antes da última curva II*

Chegamos à trilha e ouvimos, ao longe, um rugido ensurdecedor das águas. Sabíamos que o nível do rio estava alto, devido às fortes chuvas que caíram naquela semana, ate o dia anterior da nossa ida, mas não imaginávamos nada próximo ao que veríamos.

Exatamente onde entrávamos no rio, a uns 20 metros da água, existia uma frondosa e antiga mangueira, que agora estava partida ao meio (soubemos depois que tinha sido um raio na noite anterior a nossa ida) e, literalmente, dentro d’água devido ao aumento dos níveis do rio por conta da tempestade. Era o prenúncio do que estava por vir!

Tínhamos como lema “quanto pior melhor”. Gritamos em euforia. Mas aqueles gritos eram a tentativa de silenciar nossos medos. As provocações de valentia foram iniciadas e apostamos para ver quem ia primeiro.

Sabendo que pela primeira vez teríamos uma câmera de filmagem, e com o ego maior que o medo, para demostrar meu “valor adolescente”, assumi esse posto voluntariamente (aí já estava tendo um ataque de pânico), e, após colocar os equipamentos, adentrei ao caiaque sobre uma pedra (a prainha na qual entrávamos tinha sumido) e me preparei para o lançamento àquela estupidez.

Aqui um adendo: corredeiras tem como um dos seus efeitos a criação de potentes redemoinhos que sugam para baixo qualquer tronco, animal, ou entupidos adolescentes egocêntricos, e, mesmo cônscio do risco, saltei nas águas antes seguras, submergindo em um desses redemoinhos formados bem na hora que toquei o rio, sendo projetado ao fundo, batendo em uma pedra e rachando o casco.

Usando o remo e a experiência, consegui emergir, achando que estava quase no mesmo lugar e, para meu desespero, percebi que estava em cima da última curva, pois tinha sido arrastado por baixo d’água sem perceber, nas duas primeiras curvas.

Com o caiaque afundando, fui novamente virado por um redemoinho tão grande que, simplesmente, me dragou imediatamente do barco, e, mesmo com colete, fui pressionado no fundo do rio, ao mesmo tempo que percebia estar sendo levado à frente, e, quando já estava apagando no afogamento, emergi novamente, em frente à mesma pedra onde havia me acidentado anteriormente.

O medo do que teria que enfrentar se seguisse arrastado após a ultima curva, rumo ao desconhecido, me fez agarrar novamente a pedra afiada, sentido o impacto dos arranhões, e, não suportando a dor, tomei a única decisão que me restava:

Me entreguei, entendendo que não sabia o que vinha além, mas sabia que se ficasse naquela pedra seria quebrado ao meio.

Um silêncio interno se fez, e não lembro quanto tempo passei sendo arrastado naquele corredor por onde o rio se transformara em nossa lenda, nosso monstro desconhecido, e, de repente, a calmaria.

O instinto de sobrevivência me fez reunir o último suspiro, que só um adolescente consegue reter, abri os olhos e me vi flutuando num alargamento repentino do rio, pois com as águas espalhadas naquela largura, sua intensidade era aplacada, e nadei até a margem.

Até onde sei, ninguém tinha chegado naquele local, não existiam trilhas nem estrada perto e entendendo isso, sentei à margem e chorei.

Chorei com uma culpa imensa, com uma vergonha de onde meu ego tinha me levado, entendi a estupidez que era querer provar a outros meu valor, sabia que tinha flertado com a morte e que ela estava me dando outra chance.

Mesmo bastante ferido, o instinto de sobrevivência se fez maior e levantei em busca de alcançar a estrada que sabia estar à direita da mata fechada, seguindo por sua margem na busca de possível trilha ou árvore em que pudesse subir para enxergar ao longe.

Nesse momento percebi que tinha chegado ao paraíso. Muitas daquelas árvores eram frutíferas. Mangueiras, pés de graviola e carambola, que tinham galhos enormes, carregados, muitos deles formando túneis ao tocarem na água, pesados de tantos frutos, pois não tinha ninguém que andasse por lá para colhe-los. Lembrem, o ano era 1985, e aquela região era muito pouco frequentada, Praia do Forte era apenas uma aldeia de pescadores, sem nenhuma infraestrutura.

Parei, comi ate me fartar, e, subindo na maior mangueira que vi, visualizei ao longe a estrada de barro, seguindo pela mata abri caminho na marra, até alcançar a mesma.

Precisamos de competência para sermos vencedores, mas a sorte de vez em quando é muito bem-vinda.

Seguindo a estrada a menos de um quilômetro de onde saí, encontrei o resto da equipe, que tinha parado junto a uns locais da região na busca de ajuda, na tentativa de me encontrar. Explodimos de alegria, choramos juntos, e decidimos que iríamos voltar no Verão, quando o nível do rio ficava muito baixo, com riscos mínimos, para eles conhecerem aquele paraíso que eu tinha encontrado.

*Nesta edição, continuidade da coluna do dia 12. Conclui na próxima segunda-feira, 27

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Fotos: Acervo pessoal e Edvaldo Borges

1 comentário em “A pedra antes da última curva II*

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