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A pedra antes da última curva*

Tenho visto muitas pessoas questionando quando voltaremos ao normal, quando voltaremos a viver o passado como se fosse presente, apegados a antigos hábitos que as mantém exatamente onde estávamos antes do vírus.

O medo do novo de novo, das mudanças que agora não são opcionais e, sim, obrigatórias, onde teremos que nos soltar dos alicerces que construímos durante nossas vidas até aqui, que nos colocavam em uma zona de conforto agradável, mas totalmente previsível, que em alguns casos nos fariam permanecer num mesmo lugar, passando toda uma jornada num mesmo ponto das nossas estradas da existência, mesmo que, para ficar neste ponto, tivéssemos que nos agarrar em pedras e obstáculos que nos machucam e ferem não só nossos corpos físicos, mas também destroem nossos espíritos aventureiros.

Pensando nisso, fui levado ao meu passado novamente, quando adolescente, tempo em que, ao me tornar bom em algo, me agarrava aquilo, como se minha sobrevivência dependesse da fixação naquele momento razoavelmente seguro, e, assim, impedia minha própria evolução!

O que isso tem a ver com o atual quadro gerado pela pandemia que vivemos atualmente?

Então já sabem, senta que lá vem história!

O ano era 1985, os meus 17 anos eram conturbados e confusos. Na saída da adolescência, minha visão de mundo era que deveria provar aos outros ser bom em tudo para ser aceito, caindo na cilada de realizar qualquer desafio que me fosse proposto, resultando em constantes lesões físicas e, algumas vezes, emocionais.

Naquela época estava evoluindo na prática da canoagem em ondas, meu ambiente diário, oceânico, onde os segredos e manobras inerentes à prática me eram familiares, a segurança me levava à criação de manobras e de formas de sobreviver às ondas, e, na medida do possível, com riscos calculados.

Ali achava que realizava a “ordem” mundial da minha imaginação, onde só seria aceito se realizasse as mais perigosas empreitadas, tornando-me exemplo a ser seguido, ou apenas motivo de risos nos infinitos acidentes, que depois compreendi que eram o real motivo de tamanha plateia a assistir minhas sessões de surf.

Por ser tão insano no surf de caiaque acabei chamando a atenção de outros praticantes, mais velhos, com condição financeira muito boa, com carros e equipamentos de primeira linha, e que perceberam que poderiam evoluir comigo as novas manobras que estava criando. Recebi muito apoio, inclusive com empréstimo de equipamentos deles (que muitas vezes voltavam em pedaços), além de me conduzirem em competições e viagens para desbravar novas ondas.

Foram tempos mágicos, pois assim tive a condição de conhecer lugares que não conseguiria nunca visitar por conta da idade e das finanças.

Assim como na vida, buscamos por segurança, zonas conhecidas, e o mar era, e ainda é, uma dessas zonas na minha estrada da vida.

Uma grande lição estava por vir, que mudaria minha visão de mundo, que me faria realmente forte, me tiraria então e definitivamente da adolescência, e me lançaria na real aventura da vida.

Daquele grupo que me adotou, dois deles tinham o mesmo ímpeto que o meu, e não se continham em apenas uma modalidade da canoagem, e a descida de corredeiras era uma das metas deles.

Me levariam junto, a uma zona desconhecida de águas escuras e turbulentas, cercadas de pedras, onde o acesso era de difícil a impossível, onde abrir caminho a facão e ficar preso em atoleiros era rotina, onde eu nunca havia pisado, e pelo risco, não queria pisar.

Minha imaginação me levava a crer que se declinasse do desafio estaria fora do grupo, e, portanto, aceitei participar dessa aventura para desbravar corredeiras, afinal o caiaque, que era meu, e que eu utilizava em ondas quando não tinha o empréstimo do caiaque específico, era produzido para descidas em corredeiras. Era todo remendado e muito pesado, oco por dentro, e se virasse e eu tivesse que abandoná-lo, ele afundaria.

Usamos um “saiote” que prende a cintura à borda do cockpit, vedando, assim, a parte interna. E no mar, se virasse, usava uma manobra conhecida como rolamento, que consiste em usar o remo como base na flor d’água, para desvirar sem precisar abandonar o mesmo. E, se por ventura, tivesse o barco arrancado de mim pelas ondas, seria levado para a beira da praia pelas ondas, me dando a chance de reavê-lo.

Nas corredeiras apenas o rolamento era aceitável, e bem mais difícil de realizar pela turbulência da água e menor flutuabilidade que a agua doce oferece, sendo que, se tivesse de abandonar o barco, ele seria levado ao fundo e, de lá, dentro dos turbilhões e redemoinhos, nunca seria recuperado, sendo esse meu foco, jamais desgrudar da canoa.

O local era o Rio Pojuca, antes de Praia do forte, onde entrávamos por estradas de barro que nos levariam ao desconhecido. Após muita luta conseguimos descobrir uma trilha que, pelo som emitido ao longe, nos fazia saber que no final dele tinha uma corredeira, o barulho gerado nesses lugares é poderoso e dominante.

Encontramos um ponto do rio com três corredeiras visíveis, em S, de nível 03 (numa escala de 05, à época) em que descobrimos na primeira descida que após a ultima curva do S, se passássemos, não teria retorno, pois não víamos possíveis trilhas na mata ao longe, por conta do rio se comprimir com todo seu volume entre duas pedras gigantescas, o que faria naquele ponto o fluxo aumentar ao nível 05, com o rio cheio. Muito perigoso, era a nossa conclusão.

Fomos algumas vezes aquele mesmo local, onde descíamos até a última curva, e lutávamos alucinadamente para alcançar a margem direita, onde voltávamos pela mata com os barcos na cabeça até o ponto inicial. Mesmo usando coletes salva vidas, capacetes, joelheiras e tênis (para voltar pela mata com seus espinhos), o medo de passar da curva foi se tornando uma lenda, e todos que foram conosco nessas descidas passaram a temer esse possível momento.

Novamente estava numa quase zona de conforto, salvo o medo da curva, e com a prática fomos elevando o nível das descidas, os riscos também aumentaram, os acidentes causados pelo medo na tentativa de não passar a curva estavam se tornando uma constante e em um deles, não conseguindo o rolamento,

fui arrastado até uma pedra, no final da última curva, onde me agarrei, mesmo preso ao caiaque, na esperança do lançamento de uma corda. Fui resgatado sem perder o barco, mas ganhando duas fraturas na mão, muitos arranhões e 17 pontos na cabeça, tudo ganho no tempo que me agarrei a pedra.

O tempo passou, e, assim que me recuperei, o grupo, em comemoração, marcou uma nova descida na mesma corredeira. Como relatei anteriormente, essas atividades esportivas, quando davam errado, causavam não só lesões físicas, mas principalmente, emocionais.

Ainda estava determinado a ser visto como um valente, mesmo estando em pânico, e, assim, seguimos em grupo para os “festejos” do meu retorno.

Não imaginava que ali passaria um dos mais próximos momentos ao lado da morte, mas, também, da minha maior lição de vida até aquele momento.

*Continua na próxima segunda-feira, 20, e finaliza na segunda, 27.

INSTA @daltonvinhaesdantas // Canal no youtube, acesse VINHAES EDF

Fotos: Acervo pessoal, Foto por Jake Colvin em Pexels.com, Foto por Ian Turnell em Pexels.com

1 comentário em “A pedra antes da última curva*

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