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Ser forte pelo esporte

Os gregos da era arcaica entendiam o Kosmo como a grande ordem na qual cada um de nós tem um encaixe certinho para preencher a perfeição. Bastava encontrar nosso daimon (talento ou dom) que alcançaríamos o estado de eudaimonia (felicidade).

Desconfio que Zeus curtiu quando descobri meu daimon muito cedo, ainda criança. Foi quando tio Milton levou-me para ver o primeiro jogo, um Fluminense de Feira 2×2 Bahia, e tia Nazaré ajudou-me a colar as carinhas do meu primeiro time de botão.

Paulinho, quando já curtia jogos de futebol e de futebol de botão

Para completar a harmonia, meu pai Pedroca começou a levar-me para ver os jogos do Vitória de Osni e Mário Sérgio. Quando fiz 7 anos, acreditei que Papai Noel deu-me de Natal a melhor bola de 1971, da marca Dente de Leite.

Além de bola de rua, na Lapinha, onde organizei um Vitória, e futebol de mesa, também fui judoca e estraçalhei minha clavícula direita no primeiro exame de faixa. Saí da branca pra azul e o Brasil perdeu ali um medalhista olímpico.

Quem não encontra seu daimon ou passa a vida fazendo coisas fora do seu desígnio pode irritar os deuses. Esta crença casa certinho com a neurose da qual sofro, chamada ‘do destino’. Ou daimon ou destino, a sorte é que vivo pelo esporte.

Até fez uma rima, pobre, mas fez. Logo na entrada de meu apê-quadra, tem um tapete com o desenho de um campo de ‘fútil-ball’, como gosto de reescrever, pois é na futilidade e não na utilidade que encontramos a alegria.

Na toca do Leãodro, pôsteres (Ô pluralzinho feio), coleções de revistas encadernadas, bolas, desenhos de meus filhos, aos quais transmiti o bom gosto do esporte, e os seres invisíveis que habitam o lugar nos transportam a uma praça esportiva imaginária.

Desculpa se vocês crêem em coincidência, mas assim que eu me formei jornalista, o telefone fixo tocou e era um convite para trabalhar de repórter esportivo no jornal Correio, quando ainda era aqui na Paralela, perto de onde moro tem uns 15 a 16 anos.

Vamos ser objetivos porque pra caber 55 anos de vida esportiva misturada com a vida-vida mesmo é um décimo-terceiro trabalho de Hércules. A crônica esportiva e eu fomos feitos um para o outro: foi meu único casamento que está durando até agora.

Trabalhei em um monte de jornais, Correio, A Tarde, Tribuna, Jornal da Bahia, Bahia Hoje, Estadão e até na Gazeta Mercantil, que só noticiava economia, eu encontrei um jeito de criar uma seção de marketing esportivo porque amor com amor se paga.

Quando decidi fazer carreira acadêmica, o que eu quis pesquisar? Claro, ela. A bola. No mestrado, pesquisei a relação do jornalista esportivo com o cartola que desenvolve carreira política. No doutorado, foi o jornalista e o torcedor.

O resultado do meu trabalho, primeiro no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas, e depois, no Programa Multidisciplinar em Cultura e Sociedade, ambos na Ufba, gerou meu único e suficiente livro.

A publicação é da Editora da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e trata da invenção da torcida. Quando era criança, também curtia editar livros que estão hoje encadernados em minha estante, mas só tem um exemplar de cada, para mim mesmo.

Tenho muita alegria em me reconhecer capaz de produzir conteúdo esportivo na imprensa e, ao mesmo tempo, formar jornalistas esportivos nas faculdades por onde lecionei. Um monte também! Minha carteira de trabalho não tem mais folha limpa.

Comecei na Ufba, depois passei por várias particulares, FTC, FSBA, Unijorge, FIB-Estácio, agora estou pela Unirb, onde me chamaram eu fui e hoje, como retribuição, sou editado por meus ex-alunos. O magistério é meu segundo daimon.

Acredito ter dado alguma contribuição para a revelação de ótimas cronistas de esporte, além de ter trabalho publicado sobre este tema no Núcleo de Estudos Interdisciplinares da Mulher (Neim).

Não são poucos os bons profissionais de crônica esportiva que foram meus alunos, estagiários, orientandos, repórteres e agora me chamam para trabalhar, sinal de positividade da crença dos gregos: descobrir o daimon cedinho dá alegria a vida toda!

Paulo Leandro é jornalista, professor doutor na Unirb. Autor do livro Negô! Baêa! A invenção da torcida baiana

Fotos e ilustrações: Reprodução @PauloLeandro

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