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Coreografia da sororidade

Mestra da dança do ventre, Rita Carneiro promove a autoestima e o espírito fraternal nas aulas dos Cursos Livres da Escola de Dança da Funceb

ÍconetextoClaudia Pedreira
Câmera Fernando Lopes, Acervo e Jana Beltrão/agoramexe.com

“Que estejamos invisibilizadas aos olhos do mal”. Com esta frase, seguida por uma saudação à todas as mulheres da roda e ao universo, a professora Rita Carneiro encerra suas aulas de dança do ventre. Na sala de aula do antigo prédio do Centro Histórico de Salvador, onde funciona a Escola de Dança da Funceb, os estímulos são voltados para a união, para a fraternidade.

Competitividade é um vocábulo defenestrado na aula, que é de dança,  mas que pode incluir um canto de exaltação ao feminino; uma massagem com hidratante na colega; uma vivência de amorosidade. “Acredito muito nesta coreografia da sororidade, é algo que acredito que deve acontecer. Não somente entre mulheres, mas entre as pessoas, como um todo”, detalha Rita.

A professora crê, ainda, que fazer dança do ventre é uma oportunidade de entregar-se ao reencontro com o feminino, à beleza, à sensualidade, ao prazer, ao movimento. Ela completa 17 anos de ensino da modalidade, tempo no qual vem demonstrando que todas podem optar pela prática, a partir dos 17 anos, com ou sem experiência na dança, e independentemente de tipo físico.

“Em sala, cada uma tem liberdade para buscar uma dança que lhe proporcione bem-estar, autoestima. Por isso, o autoconhecimento é importante. Cada dançarina pode enfatizar o seu estilo, destacando valores que lhe são mais fundamentais”, considera a mestra. O detalhe da mão, do pé, um olhar, o movimento do cabelo, a cor da pele em destaque com o figurino, uma ondulação do quadril, um jeitinho “tchutchuca” – ou seja, mais dengoso -, ou mais audacioso e sensual são elementos que fluem na dança da turma de Rita na Escola de Dança da Fundação Cultural do Estado da Bahia, onde ela dá aula desde 2008.

Rita Carneiro foto
Performance solo

Ventre livre – “A aula de Rita Carneiro é como uma terapia, pois ali encontrei e encontro tudo que me representa, enquanto mulher que sou”, diz Edenilza dos Santos Carvalho, a Deni, que faz aulas com a mestra há cinco anos. Nas quartas-feiras, às 18h30, as alunas já estão alongando na sala do casarão da Rua da Oração, onde funciona a unidade do Centro de Formação em Artes da Funceb. A instituição de ensino é a primeira pública a oferecer cursos de dança, no Norte e Nordeste, e recebe, em parcela significativa, pessoas da comunidade negra.

Rita Carneiro julga essencial a oferta de aulas dos Cursos Livres. “Acredito que assim a gente consegue democratizar a acessibilidade de pessoas de classes populares a todas as práticas corporais”, explica. Durante as aulas a professora visa a ampliação da cultura corporal, da auto-observação, da consciência corporal e socialização, proporcionando  melhoria nas relações consigo e também nas interpessoais.

No final de cada ano de aulas, Rita Carneiro apresenta ao público uma coreografia, na Mostra dos Cursos Livres da Escola de Dança da Funceb. As montagens mais recentes são Petrichor – o cheiro da chuva (2015),  Samba oriente (2016) e Panis et circenses (2017), todas interpretadas por alunas, no palco do Teatro Castro Alves. O fruto do curso deste ano de 2018 será mostrado no dia 2 de dezembro, no TCA, numa mostra voltada a homenagear bairros de Salvador. A Mouraria e os mouros inspiram a apresentação de dança do ventre.

Aulão no dia 27 – Quem não frequenta o curso regular pode fazer uma experiência no sábado, dia 27, quando a professora irá participar, mais uma vez, do Aulão Beneficente da Escola de Dança da Funceb, que recolhe donativos. O Ingresso será trocado por 1 kg de alimento não perecível.

Participar de ações sociais é uma constante, para a professora. Em 2016, ela realizou, na Escola de Dança da Funceb, o projeto beneficente Sou Dess@s  – Fuir e Florir – Femininos Encarcerados,  que reuniu especialistas de vários gêneros da dança, em maratona de aulas no espaço educacional. A bem-sucedida iniciativa arrecadou material de higiene pessoal, que foi entregue, com aula especial de Rita e de Ana Talita (Stilleto Dance), no dia 5 de novembro, no Conjunto Penal Feminino (leia box).

Rita Carneiro é formada em Letras com italiano, pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), mas o envolvimento com a dança foi iniciado quando ainda era estudante do ensino médio, no Colégio Estadual da Bahia (Central), tendo atuado como dançarina e professora de dança afro brasileira e popular. Como professora de Dança do Ventre, iniciou sua trajetória em 2001 e segue fazendo cursos de atualização na área de dança, tendo em seu currículo atuação em projetos sociais, preparação corporal em espetáculos teatrais (como Fogo Possesso, que foi indicado ao Braskem) e a criação de diversas coreografias voltadas especificamente para o público feminino. Ela cursa a graduação do curso de dança da Ufba.

Serviço

Aulas de Dança do Ventre com Rita Carneiro
Onde: Escola de Dança da Funceb (Rua da Oração, 1, Pelourinho)
Quando: Quartas-feiras, às 18h30
Mensalidade: R$60

Aulão Beneficente
Onde: Escola de Dança da Funceb (Rua da Oração, 1, Pelourinho)
Quando: Sábado, dia 27 de outubro, às 13h
Ingresso: 1kg de alimento não perecível

Dança do ventre sororidade
Aula de Rita Carneiro no lançamento do site Agora Mexe!

Sonho que se sonha junto

A socióloga Natasha Khran faz comentário sobre o projeto Sou Dess@s  – Fuir e Florir – Femininos Encarcerados, idealizado por Rita Carneiro e que beneficiou internas do Conjunto Penal Feminino*

“As internas ainda chegaram tímidas, fechadas e até mesmo tensas pelo clima do pátio. O que logo chamou a atenção das internas foram os cabelos blacks das professoras, foram logo comentando e se identificando, assim quebrando o gelo e iniciando a interação.

O início das aulas foi logo um despertar de descontração. O tom descontraído, irreverente e simples da professora Ana Talita logo encantou a todas. Risadas, palmas e o afloramento da sensualidade foram a tônica da aula. De tímidas, aos poucos permitiram se empoderar, se mostrar, se achar, no melhor sentido da palavra.

A segunda aula, de dança do ventre, com a professora Rita Carneiro, foi marcada pela emoção. Os movimentos não foram acompanhados com a mesma facilidade da primeira aula, mas aos poucos as mulheres foram pegando e se entregando à dança. A última parte em que usaram véus/cangas, a professora deixou livre para que elas se expressassem e ousassem. Numa mescla entre as duas aulas, as mulheres se permitiram ousar. Ao fotografar, foi possível registrar os sorrisos e as expressões de imensa alegria.

A aula encerrou com palavras emocionadas da professora Rita Carneiro. Levando-as a voltar-se mentalmente para o ventre de onde vieram e entregando a elas toda a energia positiva transmitida pelas participantes das aulas dos dias 22 e 29 de outubro. A professora falou sobre o projeto e de como as pessoas se entregaram e se envolveram nele, sem julgamentos. O evento foi finalizado com um abraço coletivo nas professoras, sugerido pelas próprias internas. A aproximação, a afinidade, a liberdade para o contato foram sentidas de longe. A sensibilidade e a simplicidade das professoras encantaram as internas. Foi lindo, e, com certeza tocou de forma profunda as internas, as professoras e todas que puderam presenciar aquele momento. Sonho que se sonha junto se realiza, e foi o que aconteceu!”

*Trecho de texto originalmente publicado no site da Fundação Cultural do Estado da Bahia, em 2016

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